O ano está começando e quero refletir sobre algo que aparece com frequência nas conversas que tenho quando o tema é Diversidade, Equidade e Inclusão: a ideia de neutralidade organizacional.
Ouço muitas organizações dizendo que preferem ser neutras. Que tratam todas as pessoas da mesma forma. Que se orientam apenas por critérios técnicos, objetivos, racionais. Entendo de onde isso vem. Em um ambiente cada vez mais tensionado, a neutralidade parece oferecer segurança. Mas, na prática, ela raramente existe.
Organizações não são neutras porque são feitas de pessoas, decisões, regras e prioridades. Toda escolha organizacional abre alguns caminhos e fecha outros. Quando uma empresa define horários, critérios de promoção, formatos de avaliação, políticas de cuidado ou decide não tê-las, ela está escolhendo. Mesmo quando afirma que não está.
No meu trabalho, vejo como a neutralidade costuma aparecer como argumento para manter tudo como está. Não revisar estruturas, não nomear desigualdades, não tocar em temas sensíveis passa a ser interpretado como profissionalismo. Mas preservar o funcionamento atual não é neutralidade. É continuidade. E lamento ser a portadora das más notícias: continuidade de um modelo que já exclui.
Nas palestras e diagnósticos que realizo, encontro empresas genuinamente comprometidas, mas algumas presas à ideia de que justiça é tratar todo mundo igual. O problema é que pessoas não partem do mesmo lugar. Quando ignoramos contexto, história e assimetrias, a tal neutralidade deixa de ser justa e passa a ser conveniente.
Também percebo como esse discurso protege lideranças do desconforto. Revisar processos, reconhecer limites institucionais e assumir escolhas exige responsabilidade. A neutralidade oferece um abrigo confortável, o lugar de quem apenas “segue o processo”, mesmo quando o processo já não responde à realidade.
Começar o ano olhando para isso é menos sobre apontar erros e mais sobre amadurecer a conversa. Não se trata de adotar discursos prontos ou bandeiras ideológicas, mas de reconhecer que toda organização já opera a partir de valores, mesmo quando prefere não nomeá-los.
Abrir mão do mito da neutralidade não significa perder rigor ou profissionalismo. Significa ganhar clareza. Clareza sobre quem a organização favorece, quem fica à margem e quais escolhas está disposta a sustentar de forma consciente.
Ao longo deste ano, quero seguir explorando como decisões aparentemente técnicas produzem efeitos profundamente humanos. Porque, no fim, não existe organização neutra. Existe organização que escolhe olhar para isso e organização que ainda está aprendendo a olhar.
Se essa reflexão faz sentido para a sua organização, essa é uma conversa que vale ser feita!
