A cada semana, às vezes a cada dia, surgem novas notícias de ataques contra mulheres, falas públicas misóginas ou tentativas de desqualificação feminina em espaços profissionais, políticos ou midiáticos. Em geral, a reação coletiva segue um roteiro conhecido: tratamos como exageros individuais, opiniões infelizes ou desvios de caráter.
Só esta semana, tivemos dois casos emblemáticos: Zezé de Camargo se sentiu autorizado a insinuar que as executivas do SBT estariam se “prostituindo” por realizarem um evento institucional com representantes do poder público, algo absolutamente comum no mundo corporativo.
Um pseudo-famoso/intelectual, em uma entrevista, transferiu para as mulheres a responsabilidade pelo sofrimento emocional dos homens, como se desigualdade estrutural pudesse ser explicada por ressentimento individual. Em ambos os casos, o debate rapidamente se concentrou nas pessoas envolvidas, nas intenções, no tom, na polêmica.
O problema é que, quando ficamos apenas na superfície, perdemos o essencial.
Quem pesquisa e atua com diversidade, cultura organizacional e comunicação, como eu, sabe que comportamentos não surgem do nada. Eles são aprendidos, legitimados e, muitas vezes, protegidos por normas sociais explícitas ou silenciosas.
A violência contra mulheres, física, simbólica ou discursiva, não é fruto de falhas morais isoladas, ainda que elas existam. Ela é consequência de um modelo social que ensina, desde cedo, quem pode ocupar espaços sem pedir licença, quem pode errar sem grandes consequências e quem deve se adaptar, explicar, relevar e silenciar.
Esse modelo não prejudica apenas as mulheres. Ele compromete a sociedade como um todo.
As mulheres pagam um preço evidente: violência, sobrecarga, culpa, interrupção de trajetórias profissionais, descrédito sistemático. Mas os homens também são afetados, ainda que de forma menos visível: dificuldade de lidar com frustração, relações afetivas frágeis, medo de demonstrar vulnerabilidade, confusão entre poder e dominação.
Quando pedir ajuda vira sinal de fraqueza e reconhecer limites é visto como ameaça, o resultado é uma convivência empobrecida, no trabalho, nas relações íntimas, na vida pública.
É nesse contexto que falas misóginas encontram espaço, aplauso ou relativização. Não porque sejam aceitáveis, mas porque ainda operam dentro de uma estrutura que normaliza privilégios e dilui responsabilidades.
Quando homens raramente são responsabilizados por seus erros, inclusive por violências e crimes, cria-se um ambiente em que o desrespeito se torna previsível, repetível e, muitas vezes, impune.
Há um equívoco recorrente nesse debate: a ideia de que cabe às mulheres “educar” os homens. Essa lógica não apenas desloca a responsabilidade como reforça a desigualdade que diz combater.
Educação é um processo coletivo. Passa pelas famílias, pelas escolas, pelas empresas, pelas instituições, pela mídia e pelas lideranças. Passa, sobretudo, pela disposição de rever modelos de poder que já não dão conta da complexidade da vida contemporânea.
Tratar violência, misoginia e desigualdade como desvios individuais é confortável, porque preserva o sistema intacto.
Reconhecê-las como efeitos estruturais exige mais trabalho, mais desconforto e mais compromisso. Exige repensar culturas organizacionais, critérios de liderança, formas de comunicação, mecanismos de responsabilização e, principalmente, a naturalização de privilégios.
Esse não é um debate ideológico. É uma questão de convivência social, de saúde pública, de segurança e de futuro. É sobre como queremos trabalhar juntos, educar filhos, construir relações e ocupar espaços coletivos sem reproduzir violências disfarçadas de opinião ou tradição.
Enquanto insistirmos em tratar cada novo episódio como exceção, seguiremos presos ao mesmo ciclo. Romper com ele exige menos indignação momentânea e mais disposição para enfrentar as estruturas que continuam autorizando o colapso.
