“O que é moradia assistida?” Essa é, de longe, uma das perguntas que mais ouço há 3 anos, desde a Larissa passou a morar em uma. A pergunta quase nunca vem sozinha. Ela costuma vir carregada de estranhamento e, muitas vezes, de vieses. Por isso, falar sobre moradia assistida é necessário. Não só para explicar um conceito, mas para disputar narrativas.
A moradia assistida faz parte do chamado modelo social da deficiência. Isso significa entender que o problema não está na pessoa, mas nas barreiras que a sociedade impõe. A proposta é simples e, ao mesmo tempo, revolucionária para os padrões brasileiros: oferecer dignidade, autonomia e vida possível para pessoas com deficiência, especialmente aquelas com deficiência intelectual, na vida adulta.
Do mesmo jeito que um(a) jovem sem deficiência tem o direito de estudar fora, morar sozinho(a), com colegas ou com namorado(a), as pessoas com deficiência intelectual também têm.
Claro que a moradia assistida deve ser adaptada às necessidades de quem mora ali. Um lugar de morar, não de “guardar pessoas”. Além de cuidadoras, há equipes multidisciplinares que ajudam a construir um cotidiano mais inclusivo, seguro e acolhedor. Um espaço onde a pessoa participa das decisões, mantém vínculos familiares, circula pela comunidade e desenvolve autonomia no seu próprio ritmo.
Não se trata de afastar filhos de suas famílias. Pelo contrário. A moradia assistida pressupõe a manutenção do vínculo familiar, o envolvimento com a comunidade local e uma programação que inclui atividades culturais, físicas, recreativas, de desenvolvimento pessoal e, quando possível, trabalho. Tudo isso respeitando as particularidades de cada pessoa.
O problema é que, no Brasil, esse conceito ainda engatinha. Existem poucos lugares, quase sempre privados e muito caros. Eu trabalho muito para fazer isso ser possível para minha filha. E aí vem a pergunta que já escutei: “Mas então, de que adianta falar sobre isso?”
Justamente por isso. Falar é uma forma de enfrentar o preconceito e de pressionar o poder público. Falar é cobrar políticas públicas que criem moradias assistidas públicas, que ofereçam incentivos e isenções para iniciativas sérias e que tirem essa possibilidade do campo do privilégio.
Porque hoje, o que acontece é cruel: mães mais vulneráveis seguem sem opção. Sobrecarregadas, adoecidas, vivendo com medo do futuro. A sobrecarga materna é real. E a falta de perspectivas para pessoas com deficiência intelectual na vida adulta também.
É importante dizer com todas as letras o que não é moradia assistida: não é abandono, não é institucionalização psiquiátrica, não é asilo. Esses estigmas só existem porque ainda sabemos pouco e julgamos muito.
Como mãe, não tem como fugir da pergunta que atravessa todas nós: “O que vai ser da minha filha no futuro? Como será quando eu envelhecer ou morrer?”. Hoje, eu sei que a Lari está segura, feliz, mais autônoma e vivendo uma vida possível e digna na Amae Moradia. Sei que, se algo acontecer comigo, ela estará bem assistida. Isso não apaga as angústias, mas muda completamente o horizonte.
Falar sobre moradia assistida é falar de futuro. De direitos. De políticas públicas. De cuidado compartilhado. E, principalmente, de esperança. Existem caminhos. E eles precisam deixar de ser exceção para virar realidade para todas as famílias.
