‘Anti-ESG’ e Anti-DEI: desvendando a onda de ataques à Diversidade

Por Patricia Salvatori, Doutora em Comunicação e fundadora da Mundo im.Perfeito Consultoria de Diversidade e da Rede Mães Atípicas

Enquanto relatórios globais apontam que empresas com equipes diversas superam financeiramente as homogêneas em mais de 20%, um movimento paradoxal ganha força: o retrocesso contra políticas de ESG e Diversidade & Inclusão (D&I). Esse fenômeno, que começou como uma reação política nos EUA, contaminou o debate corporativo no Brasil.

A agenda de Diversidade, Equidade e Inclusão (D&I) e as práticas ESG (Ambiental, Social e Governança) deveriam ser consensos inegociáveis. No entanto, o cenário se complexificou. O que está por trás dessa “onda” de ataques à D&I?

O cerne do problema está na politização de conceitos que deveriam ser princípios básicos de boa governança e ética corporativa. O movimento “anti-ESG” argumenta que essas práticas desviam as empresas de seu propósito principal de gerar lucro, impondo agendas “políticas” ou “ideológicas”. Esse retrocesso se manifesta principalmente em três frentes:

  1. Judicialização e a narrativa do “Excesso Woke”: A decisão da Suprema Corte dos EUA em 2023, que derrubou ações afirmativas em universidades, serviu de combustível para questionar políticas de equidade no setor privado. No Brasil, embora a lei de cotas nas universidades permaneça intacta, executivos confessam off the record que revisaram metas de diversidade por medo de “excesso woke” — termo importado que reduz D&I a uma agenda ideológica, minando o foco no negócio;
  2. Narrativa do “Custo da Diversidade”: executivos declararam publicamente que “DEI deve morrer”, enquanto fundos de investimento abandonaram rótulos ESG sob pressão de governos conservadores. No Texas, leis chegaram a proibir contratos com empresas que adotassem critérios sustentáveis — um movimento que, ironicamente, custou milhões em perdas, provando que regredir em ESG pode ter um alto custo financeiro;
  3. Falha de comunicação corporativa: muitas organizações, infelizmente, trataram D&I como marketing, não como estratégia. Relatórios cheios de fotos coloridas, mas sem métricas claras de impacto financeiro, alimentaram a percepção de que inclusão é “gasto”, não investimento.

Riscos do recuo: por que ceder é um tiro no pé estratégico

Empresas que enfraquecem suas políticas inclusivas não apenas falham em seu papel social. Elas enfrentam consequências mensuráveis e devastadoras para seus negócios:

  • Fuga de talentos: o mercado mudou. 70% da Geração Z recusa vagas em empresas sem compromisso social verificável. Profissionais negros, com deficiência, LGBTQIA+ e, sim, mães atípicas — grupos já sub-representados e com experiências de vida riquíssimas — são os primeiros a sair quando as políticas de inclusão minguam, levando consigo um valor inestimável;
  • Crises reputacionais: casos como o da Disney, que sofreu boicotes por escalar atrizes negras em remake de “A Pequena Sereia”, mas viu suas ações se recuperarem rapidamente graças ao apoio massivo de consumidores jovens, mostram que o retrocesso é muitas vezes efêmero e o custo de ceder à pressão é maior a longo prazo. O compromisso com valores atrai e fideliza o público do futuro;
  • Perda de inovação: dados da McKinsey revelam que equipes diversas resolvem problemas complexos 30% mais rápido — uma vantagem competitiva que empresas em crise não podem, e não devem, desperdiçar. A homogeneidade de pensamento leva à estagnação;
  • Vulnerabilidade legal e de governança: ignorar a D&I pode expor a empresa a processos por discriminação, além de minar a credibilidade junto a investidores que valorizam boas práticas de ESG.

Diante desse cenário, a atitude mais eficaz é a de resiliência estratégica e clareza de propósito. Como consultora e pesquisadora, defendo que as empresas devem ir além do discurso e agir de forma contundente e inteligente:

  1. Troque a retórica por resultados e dados concretos: Em vez de falar em “justiça social”, mostre números e o impacto financeiro. Use estudos de caso anonimizados. Sua autoridade vem da capacidade de provar o valor;
  2. Fortalecer a governança e a transparência: crie comitês de diversidade com metas auditáveis e valide dados com institutos sérios. A credibilidade acadêmica e a transparência neutralizam acusações de “ativismo” e reforçam a seriedade do compromisso;
  3. Adapte-se sem recuar: se o termo ESG virou tabu em alguns círculos, use “gestão de riscos sociais” ou “produtividade inclusiva”. O importante é manter as ações. A semântica pode mudar, a essência do compromisso não.
  4. Prepare-se para a batalha jurídica e a proteção da equipe: com a ascensão de governos conservadores, processos trabalhistas por discriminação tendem a aumentar. Treine RHs para documentar decisões e crie protocolos claros contra assédio e discriminação a colaboradores diversos. Proteger sua equipe é sua responsabilidade.

O futuro é inegavelmente interseccional

O movimento anti-D&I é um sintoma do medo diante da mudança e da incompreensão do valor que a diversidade intrínseca. Empresas que se curvam a ele perdem não só talentos e inovação, mas relevância em um mercado onde 76% dos consumidores punem marcas sem responsabilidade social.

Aos RHs e líderes que desejam navegar esse cenário, uma lembrança importante: a inclusão não é pauta de esquerda ou direita — é um pré-requisito para sobreviver, inovar e prosperar no capitalismo do século XXI. É a única via para um mundo e negócios verdadeiramente Sem Desculpas.

Sua empresa está pronta para ir além do discurso e enfrentar esses desafios de frente, transformando-os em oportunidades? A Mundo im.Perfeito oferece consultoria e palestras que desvendam estratégias eficazes para uma D&I que realmente gera valor e resiliência. Conecte-se comigo e vamos construir o futuro da sua organização.

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