Nas últimas semanas muitos veículos de comunicação têm falado sobre o caso do jovem bolsista do colégio Bandeirantes que se suicidou. O garoto de 14 anos negro, gay e periférico não suportou o bullying e a discriminação de seus colegas da escola.
Uma tragédia que poderia ter sido evitada, se as pessoas adultas responsáveis envolvidas fossem realmente responsáveis. Em uma sucessão de erros, a direção da escola jogou a responsabilidade para a ONG que seleciona os bolsistas e acusou os demais estudantes bolsistas de agressividade, por exigirem publicamente mais comprometimento da escola para combater as desigualdades. Total falta de habilidade e de sensibilidade.
Figuras ligadas à educação em São Paulo têm criticado publicamente os sistemas de bolsas nas escolas particulares (que usam deste recurso, na maioria das vezes, para justificar isenção de impostos), como a velha piada de mau gosto do marido que flagra a mulher com outro na sala e queima o sofá.
Hoje o jornal Folha de S. Paulo entrevistou estudantes bolsistas de várias escolas de elite da cidade e os relatos de bullying e discriminação são frequentes e geralmente impunes.
O que eu quero te trazer aqui é uma reflexão muito simples: Não existe inclusão de fato, se não houver vontade genuína de incluir. Se não houver uma transformação de todas as pessoas envolvidas naquele ambiente.
Não adianta a escola, a faculdade, a empresa, o clube, quem quer que seja, colocar rampas, fazer processos seletivos afirmativos, criar cotas ou programas de bolsas, se essa organização não tiver preparado seus ambientes. Se não tiver feito um cuidadoso programa de conscientização, letramento e desconstrução de vieses para quem vai receber as pessoas.
Lideranças, corpo docente, colegas de trabalho, estudantes, TODAS AS PESSOAS ENVOLVIDAS precisam, antes de qualquer coisa, de um chá de revelação de seus privilégios, para que aprendam que a realidade brasileira não é igual ao seu mundo/metaverso classe-média-alta.
Muitas destas pessoas não fazem por mal, mas por profunda ignorância. Elas nunca aprenderam sobre outras formas de existir em suas famílias, em suas escolas, em seus ambientes de trabalho. Para criarmos ambientes inclusivos de verdade, precisamos furar estas bolhas. Agora, se a pessoa tiver todas as chances para aprender e mesmo assim, continuar a agir de forma excludente, ela que arque com as consequências, inclusive de perder sua empregabilidade. Afinal ninguém com bom senso quer contratar gente preconceituosa.
Quer mudar de verdade? Começa fazendo um programa de letramento (me chama que eu vou!)
Mas se quer fingir que tem um ambiente inclusivo, deixa como está, fazendo apenas a perfumaria. Mas se prepara para as consequências (que virão!) e não diga que eu não avisei.
