Quando a gente começa a falar sobre diversidade, a primeira reflexão é: de quem estamos falando? Quem são as minorias? A palavra minoria já passa uma ideia distorcida de serem grupos pequenos, encobertos, quase que proibidos. Esta sensação não vem à toa. O objetivo sempre foi fazer com que os grupos minorizados fossem encolhidos. Mas quando olhamos dados reais, não faz muito sentido. Mulheres são 52% da população brasileira. Pessoas negras (pretas e pardas) são 56%. Pessoas com deficiência são 24%. E por aí vai.
A questão é mais complexa. A vida em sociedade pressupõe que existam regras, que determinam suas relações de poder. Quem leu Calibã e a Bruxa da Silvia Federici (se você não leu, recomendo) sabe que na Idade Média, as mulheres tinham muito mais autonomia e participação comunitária. Foi a partir do início do capitalismo que igreja católica começou com a caça às bruxas, matando milhares de mulheres atuantes socialmente, com um pseudo argumento religioso, silenciando todas as demais e reconstruindo o papel feminino na sociedade, apenas como esposas e mães submissas. E, claro, também as prostitutas, para servir aos interesses masculinos. Pouca gente fala sobre o impacto econômico desta mudança social/cultural para o recém criado mundo capitalista. Enquanto nos tornamos belas, recatadas e no lar, o poder econômico, político, religioso, social e familiar se converteu em exclusividade masculina.
Não por acaso, na mesma época, meados do século 15, a sociedade europeia recriou um projeto de RH infame e imbatível no entendimento dos donos do poder: a escravidão do povo africano. Somente para o Brasil, foram enviados quase 5 milhões de africanas e africanos, moldando a formação do povo brasileiro. Esta mão de obra escravizada, torturada e violentada foi fundamental para a expansão da sociedade focada na acumulação de riquezas e na propriedade privada. Dos homens. Brancos. Da mesma estirpe que seus pares.
Não é difícil compreender a lógica deles, ainda que desumana. Quem tem poder faz de tudo para não perdê-lo. Mesmo que isso signifique sacrificar quem ameaça. Na medida que mulheres, negros, PCDs, LGBTs e representantes de outras minorias foram conquistando direitos (na base da luta, que fique claro), as barreiras foram se transformando.
Se a lei não está mais sempre ao lado deles, a narrativa é o que importa: “foi estupr@da porque mereceu/pediu por isso”, “LGBTs querem destruir a família”, “lugar de pcd é dentro de casa”, “negros são agressivos”… Uma mentira contada mil vezes se torna verdade para quem conta, lembra? Foi assim com “ela fazia bruxarias e enfeitiçou o marido”, “negros são menos inteligentes”, “ele é monstruoso, não pode ficar aqui”.
Se você se incomodou até aqui e acha exagero, respire fundo. Não é tudo sobre você. Você é uma pessoa decente. Assim espero. E também privilegiada.
Ser homem é um tremendo privilégio. Não viver apavorada, com medo de estupro. Não ser silenciada por vozes masculinas em praticamente todos os ambientes sociais. Não sofrer preconceito ao procurar um emprego, pelo risco de engravidar ou por já ser mãe. Não ser assediada por alguém que vai dizer que é só uma brincadeira. Não tomar um tiro do marido ou namorado que não aceita o fim de um relacionamento. Não ser chamada de louca ou vadia por expor um abusador.
Ser branco também é privilégio. Não ter medo de ser preso ou morto ao voltar da escola. Não ser hiper-sexualizado e ignorado nas relações afetivas. Não ser taxado de agressivo(a) por lutar por direitos básicos e por reparação histórica da barbárie. Não receber xingamentos e apelidos no jardim de infância.
Ser hetero também é privilégio. Não ser abandonado por sua família. Não ter medo de apanhar na rua por demonstrar afeto. Não morrer por ser quem você é. Não ter que viver uma vida de fachada para não perder emprego.
Ser uma pessoa sem deficiência é um gigantesco privilégio. Não ter que transformar sua mãe em cuidadora. Não ser xingado, ignorado e isolado na escola. Não ficar recluso em casa por falta de acessibilidade e suporte. Não viver em condições desumanas por falta de políticas públicas de cuidado, saúde, educação, moradia, lazer e trabalho.
Respondendo a pergunta do título: diversidade para TODAS, TODOS, TODES. Inclusive você! O que você pode fazer? Reconheça os teus privilégios. Use sua voz. Pare de ser conivente com o erro. Seja mudança. Como dizia Betinho, talvez a gente não consiga mudar o mundo, mas a gente pode mudar o nosso quarteirão. Garanto que isso já vai fazer uma enorme diferença.
