Guimarães Rosa, Walter Franco e a impermanência

A vida é feita de ciclos e um dos grandes problemas do ser humano é não conseguir aceitar esta impermanência. As coisas começam e acabam, quer você queira ou não. A morte está aí e eu conto nos dedos de uma mão as pessoas que conseguem lidar com ela de maneira tranquila.

Nem mesmo as pequenas mudanças passam incólumes. Quantas noites de sono você perdeu na véspera de uma prova, do primeiro dia de aula e de trabalho, de uma apresentação importante, de uma viagem ou de qualquer atividade que fugisse ao script? Quem nunca abriu mão de uma proposta de emprego por medo de sair da zona de conforto? Quantas pessoas continuam presas em relações acabadas e/ou doentias, por não se imaginarem sozinhas? Lembra daquele conhecido que continua levando a vida aos cinquenta igualzinho na juventude? Como se a pessoa quisesse congelar o tempo, para que nada mudasse. Lamento ser a portadora das más notícias, mas dá não, amigão…

Como uma sagitariana desapegada que sou, tendo a achar que tiro de letra todas as mudanças que a vida traz. E vamos combinar que até procuro por elas. Aos 42, virei a mesa, abrindo mão de uma carreira corporativa bem sucedida e comecei do zero no mundo acadêmico. Aos 50, deixei de ser professora e coordenadora de curso de uma das melhores faculdades do país, para seguir meu sonho de morar na Europa. Vendi casa, carro, móveis. Doei tudo que não cabia nas malas. Defendi minha tese de doutorado diretamente da Sérvia, onde estava de quarentena para entrar na Itália, que não aceitava entrada de brasileiros. Um ano depois, decidi voltar pelo bem da minha filha e fiz todo o processo de desapego novamente.

Algumas pessoas muito queridas, que me conhecem bem, me alertaram: “fique de olho em você. Permita-se chorar, desmontar, ressignificar essa volta”. Tiro de letra, pensei logo. Cá estou, um dia de cada vez, mais feliz do que pensei que ficaria, valorizando São Paulo por sua diversidade cultural, gastronômica e de serviços. Longe de mim ficar falando mal da Itália por não estar mais lá. Mas SP tem uma mentalidade cosmopolita que se vê em pouquíssimos lugares no mundo. Nem tudo são flores. Se começo a ler notícias e pensar nos problemas políticos, a vontade é de sumir. Mas em outubro a gente resolve. Quando vou ao mercado e vejo que TUDO aumentou estupidamente em 12 meses, então…

Neste novo ciclo, muita coisa mudou. Minha filha está em uma moradia assistida e está feliz e adaptada. Depois de 17 anos, o cuidar dela não é mais uma das minhas maiores preocupações. Não por acaso, escolhi viver no Centro, um bairro mais dinâmico e bem diferente do qual morei quase a vida toda. Optei por não ter carro, outra mudança que impacta minha rotina mais do que eu imaginei. Ainda que eu esteja cheia de tarefas de cotidiano na organização da casa nova, sobra tempo pra pensar na vida. É aqui que mora o perigo: dosar para não atropelar os sentimentos, fingindo que está tudo ótimo e suuper-normal, e no outro extremo, não ficar presa ao passado e cair na autopiedade do não-queria-que-fosse-assim.

O segredo é uma mistura da vibe Zeca Pagodinho deixa-a-vida-me-levar com a falta de paciência natural da pessoa aqui, que já sai querendo resolver tudo que aparece. Existe um ditado popular que sempre fez muito sentido pra mim: é melhor a gente se arrepender das coisas que fez. Imagina que triste envelhecer e perceber que tudo ficou pra trás e as oportunidades passaram? Como diz Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem. E assim seguimos o baile. Sem tédio.

Encerro por hoje com um hino de Walter Franco para os mais avançadinho de idade:

Tudo é uma questão de manter
A mente quieta,
A espinha ereta
E o coração tranquilo.

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