Hoje o papo vai ser diferente (mas não muito). Criei esse espaço pra falar de inclusão, diversidade e ativismo. E está mais do que claro que não se faz ativismo de uma causa só. Se você só defende um lado, a coisa toda não engrena. A questão é: como é difícil ser mulher em pleno 2021.
Há dois dias leio sobre o pseudo-famoso que espancou a mulher na frente da filha e de outras pessoas. Enquanto o abjeto está ganhando seguidores, a moça tem sido xingada e acusada de ter sido responsável. E este é só mais um caso que, logo logo, vai cair no esquecimento .
Quem aqui não conhece alguma mulher que sofreu violência fisica e/ou psicológica? Eu já fui xingada de tudo que vocês podem imaginar por machos desprezíveis por me posicionar contra a violência contra meninas e mulheres muito próximas. Teve um que adorava me nomear como “sua amiga vaca” por eu não tolerar o que hoje sabemos bem o quanto era criminoso. Isso lá em 1992, 93…
Quando era uma simples estagiária, na década de 90, eu tinha uma colega de trabalho cinquentona incrível, daquelas que a gente quer ser igual quando crescer. Ela tinha filhos adultos e foi para SP por ter se apaixonado por um cara mais novo, com filho pequeno. Em pouco tempo, ela estava criando o filho dele e aparecia sempre com hematomas. Um dia ligou chorando dizendo que estava passando mal e ouvi o cara gritar. Não tive dúvidas. Chamei a polícia e mandei para a casa dela. A polícia foi e não pode fazer nada, já que ela e o espancador disseram que não tinha nada errado. Ela ficou meses sem falar comigo…
Já saí da minha casa às onze da noite para gritar com um maldito que espancava uma moça dentro do carro, na esquina da minha casa. Liguei para a polícia, mandei placa do carro, ofereci ajuda e acolhimento para ela.
Enquanto escrevo, as memórias vão surgindo. Nos anos 80, eu devia ter uns 15 anos, quase tomei um murro de um lixo por recusar um beijo e empurrá-lo. Isso dentro de um dos clubes mais caros de SP. Por sorte, alguém o segurou e eu tasquei um tapa na cara do imbecil que tinha o dobro do meu tamanho. Foi na mesma época que eu me recusava a interagir com o então namorado violento de uma das minhas irmãs. Fiquei anos sem falar com uma das minhas melhores amigas por querer alertá-la sobre o caráter do namorado também violento. A violência se dá de muitas formas, não só na agressão física. Se ele te xinga, te humilha, te proíbe de algo, faz chantagem emocional, te obriga a fazer sexo, ele é violento e agressor.
A questão é que quase todo mundo imediatamente acusa as mulheres. Pensa sobre o que elas fizeram de errado. Julga que elas deveriam se defender e abandonar esses lixos. Eu mesma julguei muito. Fiquei revoltada por elas não terem aceitado minha ajuda. Fazia questão de dizer que nenhum homem jamais bateria em mim. Nunca bateram mesmo, mas deve ser por se afastarem logo de cara. Foram décadas pra entender que TODAS ELAS FORAM VÍTIMAS de homens escrotos e criminosos, disfarçados de problemáticos, carentes, inseguros, apaixonados.
Você pode me dizer: “mas nem todo homem é assim”. Claro que não! Mas quantos homens não violentos você conhece que entraram no meio de um ataque (não é briga) para ajudar uma mulher? Quantos homens legais deram esporro nos amigos que contam vantagem de ter transado com uma mulher que tinha bebido além da conta? Que fique claro: o nome disso é ESTUPRO.
Temos que falar, sim, sobre isso tudo. Quanto mais falarmos, mais as mulheres vão entender e se defender. Covardes atacam pela fragilidade. COVARDES têm medo de mulheres seguras. Se você conhece alguma mulher vulnerável, dê suporte. Ofereça ajuda. Denuncie, se precisar. E não deixe de se posicionar.
