Passabilidade ou deficiências invisíveis

De uns tempos pra cá, tenho ouvido falar cada vez mais de passabilidade. Pra quem não conhece, passabilidade é a capacidade de uma pessoa ser considerada parte de um grupo ou categoria identitária diferente da sua. Pode ser identidade racial, gênero, orientação sexual, religião e também relacionada à deficiência. Este é o foco do texto de hoje: as deficiências invisíveis.

Em muitos casos, a pessoa com deficiência é percebida logo de partida, pela presença de uma cadeira de rodas, pela ausência de algum membro ou pelo fenótipo (síndrome de down, por exemplo). Mas existem milhares de casos de deficiências que não são identificadas, pelo menos não de imediato.

Por um lado, não há o rótulo instantâneo que chega antes de qualquer outro critério de julgamento. E isso pode ser positivo. Mas, por outro lado, faz com que as pessoas com deficiências ditas aqui como “invisíveis” tenham que provar sua deficiência para buscar por seus direitos ou não sejam compreendidas.

Exemplos práticos: tenho diversas amigas que já passaram pela situação de usar fila preferencial por estarem com filhos com autismo ou deficiência intelectual e foram constrangidas por pessoas que não se deram conta da deficiência e automaticamente deduziram que seria má fé das minhas amigas.

Eu nunca cheguei a ser hostilizada, mas já percebi olhares estranhos. Aliás, levei anos para usar filas preferenciais com a Lari, por achar que seria injusto com as demais pessoas e por receio da reação das pessoas. Com o tempo, me dei conta de quanto era pesado para ela, tanto do ponto de vista físico quanto sensorial, esta espera e me apropriei do direito que é dela.

Como hoje em dia ela ainda tem trejeitos de criança em um corpo de adolescente, a passabilidade foi diminuindo e quase todo mundo percebe sua deficiência. Mas não impediu uma vizinha mal-educada de dizer que minha filha “é uma menina histérica que grita descontrolada”, quando pedi para abaixarem o volume da festa no meio da rua, às 23h em plena pandemia.

A passabilidade não pode ser argumento para esconder nosso capacitismo, nos moldes “que beleza, ela nem parece que tem deficiência”. Mas é um fato e precisamos entender porque reagimos de maneiras diferentes quando a deficiência chega antes da pessoa e vice-versa.

E você? Já percebeu o impacto das deficiências invisíveis?

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