Eu nunca me achei uma pessoa preconceituosa. Estudei em escola pública quase a vida toda, convivi com gente de todos os tipos. Lembro que eu era uma das únicas que conversava com uma menina que tinha lábio leporino no ginásio. Tive vários colegas negros na escola. Mas não eram meus amigos. Tive amigos gays na faculdade. Mas não frequentavam minha casa. Tenho um “primo” com deficiência intelectual severa.
As aspas acima e os “mas” começam a mostrar as linhas finas do preconceito. Esse meu primo foi criado por uma tia desde bebê, mas nunca ficou muito claro que ele era meu primo. Talvez porque boa parte da família não aceitava e achava um absurdo ela, cinquentona, solteira e com uma boa carreira acadêmica (graças à minha avó, que dizia que filha dela tinha que estudar e só casaria se quisesse – isso em 1930/40. Minha vó era feminista e não sabia, minha gente!), adotar uma criança com um comprometimento tão sério. Talvez porque, no fundo, eu não lesse ele como meu primo…
Bom, o fato é que eu me achava desconstruída, tendo passado a adolescência nos anos 80, o tempo mais politicamente incorreto que se tem notícias (até o meteoro que caiu em 2018, claro). Mas eu replicava frases e comportamentos que via nas pessoas mais próximas, que repetiam de outras pessoas e assim a gente vê um véu de preconceitos sendo continuados e continuados.
Eu me achava desconstruída, mas eu ouvia piadas preconceituosas, eu ria delas. Aquele riso amarelo, incomodado. Me lembro do dia que tomei coragem e falei para uma pessoa que era muito próxima: “Chega, essa piada não tem graça. É ofensiva.” Me senti livre para sentir vergonha alheia. Que alívio.
Eu me achava desconstruída, mas eu me imaginava com as filhas mais inteligentes do mundo (sim, sempre pensei somente em meninas). Até que veio o diagnóstico da Lari, que envolve, dentre outras questões, a deficiência intelectual. E aquilo me doeu profundamente. Eu lidaria com a compulsão. Eu lidaria com as demais características. Mas por que deficiência intelectual? Justo eu que gostava tanto de ler, de estudar, de ser e parecer inteligente?
Ela foi crescendo linda, meiga, geniosa, carinhosa, teimosa, preocupada com os outros, ansiosa. E com uma dificuldade enorme para aprender. Com deficit de atenção. Com uma inocência que é só dela. Com a ingenuidade de quem não entende as maldades do mundo.
Lari não vai fazer faculdade. Não vai ler todos os livros que eu li. Não vai discutir questões existenciais. Não vai passar em uma prova de admissão. E daí? Não conheço alguém de coração tão puro como ela. Ninguém que ame tanto o Jimi Hendrix. Ninguém que saiba todas as falas do filme A hora do Espanto (versão antiga e remake). Ninguém que goste tanto de comemorar o aniversário, o dia das crianças, o dia que leva doação para crianças pobres, o dia que consegue fazer algo sozinha pela primeira vez. Tudo é motivo de comemoração e alegria para minha menina doce.
Depois de muito dizer por aí: “mas o QI dela deu 78, super bom para o padrão das pessoas com SPW”, fui me dando conta dos meus preconceitos. Todos eles. Não adianta eu querer combater o preconceito contra pessoas com deficiência na sociedade, se eu não combater os que estão dentro de mim. E combater não significa apenas deixar de ter. Eu tenho que ser anticapacitista, antiracista, antimachista, antiLGTBfóbica.
Hoje ouvi uma frase perfeita de autoria de Victor Serge: “o único sentido da vida está em participar conscientemente no fazer da história”
Precisamos fazer essa história!
