Inclusão é bonita na teoria, mas o que eu ganho isso?

Se eu fizer uma pesquisa rápida sobre inclusão, tenho certeza que a gigantesca maioria das pessoas vai dizer que é a favor. Em tese, quase ninguém assume que pessoas com deficiência devem viver afastadas da sociedade. Até porque não pega bem e ninguém gosta de ser cancelado. Mas como funciona a inclusão na prática?

Se você não tem nenhuma pessoa com deficiência na família naturalmente vai pensar que este assunto não te pertence. E aí está o erro. Todo tipo de discriminação ou segregação acontece porque a maioria-não-afetada se cala.

Que tal um rápido resgate histórico para mostrar de onde vem o preconceito contra as pessoas com deficiência? Vamos voltar até a pré-história, período em que as pessoas queriam apenas sobreviver e, para isso, se sentiam obrigadas a descartar tudo (e todos) que diminuíssem suas chances de sobrevivência. Com o crescimento das religiões, surgiram as justificativas divinas para o que não podia ser explicado e a deficiência virou sinônimo de feitiçaria ou castigo divino. Ou seja, fogueira nos desajustados.

Passados alguns séculos, matar não era mais uma opção caridosa, então começaram a surgir os hospitais e abrigos, desde que os corpos e mentes considerados imperfeitos ficassem fora do alcance dos olhos. Somente no século 20, por pressão dos movimentos sociais, essa postura assistencialista passou a ser questionada e o problema da deficiência deixou de ser o indivíduo que precisava ser corrigido, para a sociedade que precisa ser melhorada para acolher este indivíduo.

Aí é que entra a inclusão. Espaços públicos e privados que nunca foram pensados para pessoas com deficiência precisam se ajustar. A escola, o parque, a rua, o clube, a casa dos outros, a empresa, o bar… “Ah, entendi. Vamos colocar rampas”. Sim, mas essa é uma pequena parte da adaptação. Além das barreiras arquitetônicas, existem as tecnológicas, urbanísticas, comunicacionais e principalmente as ATITUDINAIS.

Não adianta você compartilhar fotos fofas de bebês com Síndrome de Down, se você não cobra da escola dos seus filhos por políticas mais claras de inclusão. Ou se você não convida o/a coleguinha autista para a festa do pijama. Ou se você acha que duas crianças com deficiência intelectual na sala do seu filho vão prejudicar o aprendizado do seu futuro CEO.

Nem pense em ganhar biscoito elogiando o amor incondicional do apresentador famoso pelo filho autista, se você acha que pessoa com deficiência não deveria estar na faculdade, “afinal ele não vai trabalhar na área mesmo”. Ou se você julga o mau-caratismo de políticos dizendo que são “deficientes mentais” (só para constar, essa expressão nem é mais usada, o termo certo é deficiente intelectual. E sim, isso importa. Mas vou deixar o assunto nomes corretos para outro texto)

Também não vale chorar de emoção nos Jogos Paralímpicos, se você não contrata pessoas com deficiência porque “infelizmente não tem profissional PCD qualificado para o que nós fazemos”. Se for verdade (tenho muitas dúvidas disso), então crie um programa de capacitação e ensine, oras. E se você demitir ou deixar de contratar uma mulher com filho(a) com deficiência porque “ela falta muito para cuidar da criança, coitada”, volte todas as casas. Você está Idade Média.

Em qualquer área que você trabalhe, tenho certeza que existem mil maneiras de incluir no ambiente corporativo, além de vagas de emprego para PCDs e suas mães, que costumam ficar à deriva. Como a criação de produtos ou serviços mais inclusivos (Abre o coração: sua empresa está preparada para clientes com deficiência visual, física, múltipla, intelectual?). Ou com campanhas publicitárias que fujam do mundo mágico dos comerciais de margarina dos anos 80.

Já pensou em sensibilizar seus funcionários para que aprendam a conviver com as diferenças? Sempre é tempo de começar. E antes que o diabinho que mora no seu cérebro diga: “bonito, mas tenho boletos pra pagar”, vou te contar um último segredo por hoje. Ambientes diversos produzem mais e melhor. E vendem mais e melhor. A diversidade não é apenas uma foto bonita. Vem!

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