Como a deficiência da minha filha me tornou uma pessoa melhor

(Texto originalmente publicado no Facebook em setembro/2019)

Antes de mais nada, aviso aos incautos que me dá calafrios ouvir frases romantizadas sobre pessoas com deficiência como “anjos especiais ou puros” ou de mães atípicas como “guerreiras abençoadas”. Esses discursos nos isolam e minimizam a responsabilidade compartilhada da sociedade para reduzir as barreiras que impedem vivermos plenamente nossos direitos.

Mas tenho pensado em algumas coisas importantes que ganhei com a deficiência da Larissa, ao longo dos últimos 14 anos, e como eu mudei: 

1) Paciência, paciência, paciência.

Euzinha, a rainha da pressa, que sempre busquei o “lead” das explicações, tive que esperar, durante meses, por mais de uma hora para que o bebê frágil e sonolento mamasse apenas 50ml. 
Esperei (não sem angústia) que ela andasse, falasse, aprendesse a ler e escrever, entendesse ironias (ainda estamos trabalhando com isso)
Esperei e espero (não passivamente) que ela seja incluída no dia-a-dia do convívio escolar e social. Que seja convidada para festinhas, como foi na semana passada e se tornou o evento do ano pra ela. Que seja acolhida com suas dificuldades.
Esperei, espero e esperarei que ela, como todas as pessoas com deficiência intelectual, tenha perspectivas de futuro na vida adulta, que não dependa exclusivamente de mim (até porque não serei eterna). Ou de boa vontade familiar. 
Claro que esperar só não resolve. Faço minha parte pra criar oportunidades e espaço. 

2) Imperfeição. 

Todo mundo adora dizer que seu maior defeito é o perfeccionismo. Balela. 
Mas no mundo real pós-deficiência, a perfeição não cabe, não orna. São dois conceitos conflitantes e quanto mais você tentar encaixa-los, mais vai se frustrar. Ao aceitar que aquela criança não era a idealizada, eu me senti mais livre para admirar e me surpreender com todas as características e qualidades incríveis dela: a memória, a disposição pra conhecer lugares, o senso de humor, a pureza, a preocupação com pessoas vulneráveis, o jeitinho errado, mas super fofo, de falar algumas palavras (miscoscópio é muito fofo!)
Ao me distanciar da perfeição, me permito errar também, sem sentir tanta culpa e perceber quanta coisa bacana pode vir de quem não busca o primeiro lugar sempre. Quando será que vão perceber os estragos sociais e a ineficiência deste modelo meritocrático vigente? 

3)Diversidade. 

Nunca me considerei uma pessoa preconceituosa, mas não tinha muita noção de quão privilegiada eu era. Por ser branca, hetero, cis, criada por mãe e pai, na zona sul de São Paulo. Ainda que só tenha estudado em escolas públicas no ensino fundamental e médio. Ainda que só tenha viajado de férias para o exterior aos 40 anos. Ainda que seja mulher. Mas minhas “desvantagens sociais” nunca foram gritantes. 
A maternidade atípica me apresentou ao preconceito e à discriminação, fosse com minha filha ou com centenas de famílias em situações muito mais complexas do que a minha, que passei a conhecer. A partir daí, foi fácil reconhecer qualquer forma de exclusão ou opressão. E mais natural ainda me posicionar contra. 

Resumo da história é que não sou Poliana (jovens, busquem referência no Google), mas realmente sou uma pessoa muito melhor hoje do que era há 14 anos. Sou mais compreensiva, mais tolerante, mais aberta e muito mais justa. Sobram, claro, toneladas de defeitos a serem desconstruídos. 😉
E você? O que mudou na sua vida com a maternidade atípica?
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